A Sedução das Inexistências, na obra "Espiral" de Irma Estopiña


A poesia da Irma apresenta-se como um caleidoscópio de imagens que nos atiram para não-lugares, materiais e corpos sem forma; sentimentos estético-amorosos que circulam ao longo de toda a obra como se fossem uma espiral contínua e de teor infinito. São várias as referências apresentadas que por meio da poesia seguem a sua própria diluição até se apresentarem como um encadeamento de ideias que perdem a sua ligação original. São várias as palavras que adquirem uma forma corporal – Irma joga habilmente com estas, desconstrói-as como se brincasse com a própria atividade formal da poesia. É notório que, nas palavras da Irma, “os fonemas invisíveis” são “obstruídos pelo piscar de olhos” – um detalhe orgânico pode e consegue declarar uma emoção estética que irá derivar para o tema central da obra: a sedução das inexistências. Este tema remete-nos para um óbvio sentimento amoroso impossível. Em “Hoje não é um bom dia para amar”, surge um objeto idílico que se encontra de costas, nesta ausência emergem as possibilidades infinitas da poesia. A distância é uma fantasia do sujeito poético, está constante em toda a obra e é capaz de criar Universos. Na sequência deste conjunto de poemas, existe uma falha em racionalizar a própria atividade amatória, o sentimento sobrepõe-se à lógica – mesmo que exista uma tentativa de devolver um pouco de filosofia na construção do diálogo imagético.

 "À minha frente só passam borboletas brancas / que cauterizam esta superfície estilhaçada.", este é na minha aceção, provavelmente um dos versos mais bonitos constantes nesta obra. Esta é a evocação de uma natureza virginal capaz de curar um objeto partido. As borboletas são a metáfora da poesia e em como ela pode escorrer sobre aquilo que interiormente está partido - e que no ato de escrita poderá ser transformado num qualquer outro objeto renovado. No entanto, é no poema Piscis Bar que encontro um conjunto temático que se entrosa num universo que me é muito próximo. Aqui, a cinematografia entra como referência, mas também como forma. Os primeiros versos são, talvez, o decalque de um conjunto de símbolos que nos levam de imediato para uma cena feminina na decadência de um ambiente noturno. Serão, talvez, estas as mulheres de David Lynch e Almodôvar - e cujo diálogo é um segmento de uma referência musical: “you’ll think I’m dead, but I sail away /on a wave of the mutilation” ( Wave of Mutilation dos Pixies). O poema contempla naturalmente a autodestruição - e a mutilação é ela própria uma imagem simbólica de uma condição feminina. Podemos, a partir daqui agarrar nas referências musicais que surgem ao longo da obra. Considero pessoalmente que se tratam de um reflexo estético marcado pela desilusão amorosa - porém esta não é uma desilusão autêntica, tratando-se antes de um ensaio que existe entre a possibilidade da literatura e a fantasia do sujeito poético.

Já o poema “limite” configura um novo ambiente formal na poesia da Irma. Existe um reaproveitamento dos significados que dão origem a imagens de grande força imaginativa. Ao mesmo tempo o poema "limite" ganha uma universalidade que destrói a noção daquilo que pretendemos dizer ser poesia. Este é um poema que cruza as suas próprias delimitações e oferece ao leitor uma experiência próxima de um sentido borderline. Um instante em que o sujeito poético é um trapezista que brinca com a situação-limite para criar um universo totalmente distinto dos conceitos materiais que se inserem na palavra "limite". 

Numa visão que pode abranger o sentido da obra “Espiral” podemos retirar uma dupla significação entre a formalidade da poesia ou a forma que podemos fantasiar para as atividades estéticas. O sentimento amoroso cumpre aqui o papel de destruir estas convenções e tornar líquido tanto o sentimento como o corpo. É nesse estado amórfico que a “Espiral” é criada, estendendo-se muito para além dos conceitos fixos, das geografias físicas ou das formas inertes que compõem os quotidianos.




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