O "Avessamento" como Transcendência do Corpo, de Maria Giulia Pinheiro
“Linguagem que é nudez maior do que a pele.
Pele arranca–se, Desejo, não.
Essa gente, essa gente achando que boceta aberta é risco,
Ave,
Não sabe que risco maior é de caneta.”
Neste poema e até mesmo ao longo da obra “Avessamento”,
podemos encontrar uma transcendência entre o ato da escrita e a imagética da
sexualidade feminina, demonstrando que de alguma forma a arte será sempre
superior aos desejos inculcados pelos homens. Um dos meios de expressar a
condição do desejo, parte exatamente do uso da força das palavras do ordinário
e que ganham uma dimensão bélica - buceta aberta é o registo de uma mulher
livre. A linguagem é um elemento que se entrelaça tanto a nível das ideias como
da sua própria mutação ao longo do poema; em parte para nos entreter e logo no
momento seguinte para nos fazer conscientes do seu poder revolucionário.
*
“Escrever com a boceta aberta,
Ler com o peito rasgado,
E costurar com a linguagem as marcas dos nossos corpos.
Eis o que desejo da arte: risco.”
A palavra risco ganha uma tripla dimensão figurativa,
podendo ser: a imagem de uma vagina, o traço de uma palavra ou a possibilidade
de atravessar um limite. Sendo que qualquer uma destas ideias estendem limites
a diversas ordens de meios humanos, considerando que o corpo é é em ele mesmo
uma margem, que as palavras poderão arrancar uma linguagem que poderá ser
sempre transfronteiriça e que os limites tanto podem ser uma invenção para
castrar como uma possibilidade de redenção na convivência humana. É nesta dança
irregular que a arte começa o seu próprio objetivo: definir uma relação entre
as polaridades e o risco que as separa, mesmo tendo em vista a dificuldade que
é uma definição e empreendimento do que será a arte. À partida é possível
visualizar como obscenidade e sagrado, surgem como mediação de um traço que
compõe este poema
*
“Pudesse escolher, era o tempo o seu marido. Era com ele que
passaria as noites em claro, discutindo as horas, buscando os
mistérios.
Pudesse mesmo decidir, era ele, o tempo, o amante eterno.
No emaranhado dele é que se perderia dos Outros. Seriam dele
os seus filhos: cada um viveria até o momento exato de nascer
de novo.”
Existe um jogo de palavras que também é ele próprio um jogo
de afetos, realçando uma vontade do sujeito poético de se imiscuir em objetos
de desejo proibidos: o tempo é também o marido de outra pessoa. E o tempo será
sempre, para a poesia, uma noção longínqua e que pertence a uma dimensão que só
poderá ser alcançada através de um adultério simbólico. Qualquer filho que
advenha da experiência da poeta com o tempo, será sempre uma reconstrução que
também pouco lhe pertence. Uma vez realizado o ímpeto de escrever, os
resultados serão um corpo que está entre a morte e a capacidade de reconfigurar
uma nova possibilidade imagética.
*
“Ao leitor
Não vou
lhe dar a
carne, mas
sinta o
gosto.”
A carne é o símbolo das ficções, que poderão ser o corpo de
um poema ou o corpo que a poeta inventa para si própria. Vagueia entre a
possibilidade da construção formal, mas também da sensualidade com que pode dar
a provar a sua natureza erótica. O leitor de poesia nunca é um mero espectador
e a leitura é capaz de dar a provar uma qualquer fantasia íntima da poeta.
*
“Lavo a louça
peça por peça,
lavo os pratos e copos,
e até as xícaras e taças,
mas as sementes grudam
e germinam mesmo assim.
O que faço agora, se das pias
saem troncos e folhas gigantes?”
Este é um poema onde entram as atividades da casa, que de
alguma forma pertencem a um velho imaginário feminino em opressão. A sujeito
poético insiste em limpar, lavar a loiça, na esperança de se livrar das sementes
que germinam e invadem o seu espaço doméstico. Estas sementes poderão ser a sua
própria liberdade que irrompe e destrói a casa que lhe ensinou o seu papel em
sociedade. Mas também a sujeito poético sente que esta destruição é a
capacidade de criar vegetações que cruzam os seus próprios limites e que -
mesmo a medo - se transformam no seu topo, próximo do céu, próximo da sua
natureza mais real.
*
“Subo bem
alto,
bem alto
aonde
pássaros vem
me visitar
e namoram em
mim,
a cobra
brinca
nas minhas raízes.
Fico verde,
bem verde,
cheia de
frutos suculentos,
os animais
me comem,
eu me dou
inteira.”
À semelhança e continuidade das imagens poéticas criadas por
Maria Giulia, o corpo feminino pode converter-se num grande embondeiro - ou o
que a minha imaginação diz de uma árvore longínqua, selvagem e rara. Este é um
corpo-natureza do qual os animais se servem, como um espaço que também é
erótico e no qual faz fundir a ideia de que a natureza é feminina e que oferece
o seu corpo ao prazer dos animais. É através dos seus orifícios e da capacidade
para a plena sexualidade que a sujeito poético se realiza e transforma numa
árvore nova
*
“Nunca um algo é sem seu
semelhante contrário.
A ovelha grita também a dor da raposa.
As duas doem a cada mordida.
Quando os astros se encontram,
bicho, não há resquício
que aguente a pose”
Em Avessamento é possível também antever paradigmas sociais
que nascem no seio da própria animalidade. O caçador está ligado intimamente
aquele que é caçado. Fazem parte de um mesmo universo onde os opressores sofrem
da mesma forma que os oprimidos - pela mesma dimensão que é igual em ambos e
que será o espaço corporal. Podemos perceber como a dor física é transversal a
qualquer animal. É a partir desta que podemos reconhecer o medo do sofrimento e
da morte. Sendo também este um tema que parte do objeto artístico uno que é o
"Avessamento", onde são incorporadas as imagens da sua autora, Maria
Giulia, em estado de sofrimento físico e doença - uma pneumonia e quatro
costelas partidas formam o começo de um ideal estético para esta obra. Ao
partirmos do sofrimento humano, conseguimos, de alguma forma, aproximar-nos
enquanto seres naturais, a dor pode ser ela mesmo um mote para a definição de
arte.
*
“Não dá pra ser leviano com o que sai da sua boca
nestes tempos de ódio.
Eu, que nunca chovo, nunca, estou aqui me inundando
dos outros,
chuva rasteira.
Não dá pra ser leviano com o sal da sua boca
nestes tempos de sódio.
Eu, que nunca sei como, nunca, estou aqui me perguntando
dos outros,
sereia muda.”
Este é mais um poema onde Maria Giulia, volta a jogar com as
palavras, formando conjuntos de ideias que vão buscar a sua afirmação ao corpo
do outro, aos designios políticos e sociais do seu tempo e também à força das
suas próprias construções emocionais. Estes são elementos que no seu conjunto
inferem um processo criativo que vai beber da sua contemporaneidade, tornando
poemas como este num registo fidedigno da condição atual da mulher-artista.
*
“E foi assim que meus vinte dedos viraram baratas:”
Este é talvez o poema da obra "Avessamento", mais
narrativo e quase-fábula - atravessando por um lado qualquer coisa de um conto
infantil e por outro, o mistério do mundo onírico e surrealista. A barata ganha
diversos contornos simbólicos, entre os quais estão: o medo daquilo que vive no
subsolo (e este subsolo pode ser o esgoto de uma grande cidade, mas também o
inconsciente individual e coletivo); ou a representação de insetos escabrosos
na literatura (onde podemos ir diretamente beber de influências como Kafka ou
La Fontaine). A corporização e humanização do selvagem voltam a este poema onde
a sujeito poético mutila o seu corpo na esperança de ver nascer em si uma
natureza crua. A pele parece ser uma muralha entre uma realidade interior em
solidão e a vontade de ser transposta até mesmo por aquilo que é repugnante.
Ainda assim encontramos o afeto dos insetos como derradeiro mote para a sujeito
poético se libertar da opressão que é o seu próprio corpo. Porque poderá ser
corpo-animal que sofre, corpo-humano que entende esse sofrimento ou
corpo-mulher que significa o papel de um sofrimento inculcado pela sociedade.
*
“A boca
não diz
o que o
coração
sente, a
boca diz
o que o
coração
queria sentir.
A boca
não sente
o que o
coração
diz, a boca
sente o que
o coração
queria dizer.
A boca
sente, o coração
não
diz, a boca
diz, o coração
não
sente.”
Para fechar este texto onde desenvolvi algumas ideias sobre
a poesia da Maria Giulia na sua obra "Avessamento", gostaria de
salientar, por último, este poema - acho que através dele podemos chegar a um
dos versos mais lidos da poesia portuguesa, que será Fernando Pessoa ortónimo e
escreve assim: «O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a
fingir que é dor a dor que deveras sente.». Também neste poema, a sujeito
poético faz uma alusão entre aquilo que é percebido pelo poeta como seu sentir,
em como este nunca está de acordo com aquilo que demonstra; ou como aquilo que
demonstra está tão longe daquilo que realmente escreve. Talvez seja esta
dualidade própria da arte e no seu fim último, tentar objetivá-la e dar-lhe uma
definição será como criar uma distância da própria poesia - e por muito que
seja mentira ou fingimento, também esse é um lugar que nasce da humanidade da
poeta.


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