Eye Color Dreams, uma viagem sonora pelas mãos do Tiago e da Sofia
a natureza vibra. é assim que ela
chega aos órgãos internos. desde a mente às sinapses existe apenas um pequeno
limite que define a vida. há quem lhe chame a alma. só com alma existe música.
até para quem não ouve, a possibilidade de redenção está nesse padrão
imperceptível que se repete no Universo. matemática e música são as
possibilidades mais próximas do resultado de uma força exterior. os homens
manuseiam a seu bel prazer este instrumento infinito. até no vazio existe o
escuro. mesmo que abras os olhos e encontres a cidade: a submissão do poder ao
ego, uma paixão inusitada, o fundo da íris: também poderão ser um corte
profundo naquilo que desejas encontrar. um homem está sempre parado à espera do
minuto seguinte. fazer as contas é vibrar. criar o padrão é aceder à
inteligência superior. mas os algoritmos da natureza jamais poderão ser reproduzidos
fielmente através das máquinas. precisas dela, mas não a podes possuir.
um dia encontrarás a figura de
uma mulher na sombra. o seu útero em sangue dar-te-á a provar o sabor da água.
sentirás sede para sempre. o seu sangue será o teu sangue. da sua placenta
germinarão outros como tu. à medida que construíres uma casa para os teus
filhos, sentirás o medo da noite. muitos sairão da mesma terra. para dizerem
que te amam, mas que também têm sede. procurarás a sua mão no interior de uma
gruta. descobrirás que a sombra é como a noite. pensarás que a tua mãe te
abandonou. atearás fogos que queimarão a sua pele. sempre no desejo de a
restituíres. de voltares para dentro dela. as florestas deixarão de ser
sagradas porque tu tens medo. e aos poucos a tua sede confundir-se-á com a
morte. a escuridão passará a viver dentro de ti. será muito difícil de aceitar
quando ela disser do fundo de ti mesmo: estás doente.
o rei dos homens cegou os olhos
quando descobriu que fodera a própria mãe. outros homens dirão que isso foi a
infância. pensarás que a culpa é da mãe. pensarás que a mãe precisa de um homem
especialista em assuntos de homens. um curandeiro. um médico. um académico. um
político. talvez até mesmo um general. será demasiado tarde quando entenderes
que na verdade és tu que precisas dela. que os assuntos dos homens serão
diminutos perante o seu canto. tudo porque tens medo das florestas. dos
animais. do escuro. porque inventaste um ser superior que também tem medo. como
tu.
talvez um homem feito do mesmo
barro sinta prazer com ela. é o tipo de homem que parece à primeira vista um
forasteiro. um estranho. um louco. um alienígena. será aquele que procurará a
noite e cantará com os lobos. a sua música entra dentro de ti. foi como se
ainda estivesse com ela. outro homem feito do mesmo barro surgirá. pegará no
barro e esculpirá o corpo dela. e tu sentirás tesão pela mãe. terás vergonha da
arte e da tua própria sensibilidade estética. nunca ninguém te disse que a mãe
também está no abismo. achas que está sozinho e que a poesia é para cobardes.
inventarás as máquinas para que a possas substituir. domarás o fogo contra
outros homens. inventarás a roda, a pólvora e as armas. tudo aquilo que chamas
de progresso é um passo longínquo da tua própria identidade. somos todos do
mesmo barro, até quando existem diferenças. e ela também ama os filhos
pródigos.
um dia pode acontecer que a
tristeza seja infinita no teu olhar. e que procures a cura. vê como os teus
irmãos se refugiam na treva. vê como pegam na música. na arte. na poesia. no
amor. procura o padrão que se repete nela. na mãe de todas as naturezas. vê
como a sua lógica não necessita de retórica. escuta o princípio de ti mesmo.
enfrenta a noite, mas não a confundas com um demónio. não cries divindades para
as tuas fantasias. nem religiosas, nem tecnológicas. atravessa o escuro com o
teu próprio corpo. é ai que ela reside.
Poderão ouvir a banda Eye Color Dreams aqui.
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